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  • 01Jan
  • Informativo

O diagnóstico laboratorial da toxoplasmose

Nº 124 Jan - 2003

O Toxoplasma gondii, parasita intracelular obrigatório, possui três formas de evolução:

1 - Taquizoitos (ou trofozoitos) são as formas de reprodução rápida, encontradas nos tecidos durante a infecção aguda, e que possuem a capacidade de invadir células. Eles virtualmente desaparecem com o evoluir da resposta imune, mas persistem no interior de certas células na forma de cistos.

2 - Bradizoitos (ou merozoitos) - formas de reprodução lenta ou de repouso - são os microrganismos contidos dentro dos cistos. Como estes podem ter sua cápsula desenvolvida a partir da célula hospedeira, também são referidos como pseudocistos.

3 - Oocistos são formas produzidas exclusivamente nas células intestinais dos felinos e eliminadas nas fezes.

A infecção pelo toxoplasma é muito comum e disseminada em nosso meio (acima de 70% nos doadores de sangue em São Paulo), contudo, a toxoplasmose-doença é rara e pode assumir duas formas básicas: a toxoplasmose adquirida e a toxoplasmose congênita.

 

Toxoplasmose adquirida

A infecção é adquirida pela ingestão de oocistos presentes em locais onde vivem gatos, e veiculados por água, alimentos ou insetos; ou pela ingestão de carne mal cozida (ovina ou suína) contendo pseudocistos viáveis. Os microrganismos de oocistos ou de pseudocistos penetram na mucosa intestinal, ganham os linfáticos e são disseminados por via sanguínea parasitando quaisquer células exceto as hemácias. Em alguns dias, com a evolução da resposta humoral os trofozoitos vão desaparecendo, mas persistem como bradizoitos no interior de pseudocistos em algumas células, onde podem perdurar indefinidamente. Esta zoonose tem curso benigno, quando sintomática, e apresenta um período de incubação de 10 a 23 dias. Na eventualidade de queda da resistência, como é o caso dos imunodeprimidos, pode haver reativação da doença ou dos parasitas.

 

Toxoplasmose congênita

A mãe só transmite a toxoplasmose ao feto se sofrer a primo-infecção durante a gravidez, que é quando existirão os trofozoitos capazes de invadir a placenta.
O risco de transmissão materno-fetal está diretamente relacionado com a idade gestacional: 17% no 1o. trimestre, 25% no 2º trimestre e 65% no 3º Já a gravidade das lesões fetais, é inversamente proporcional a idade gestacional: no 1º trimestre há 13% de probabilidade de lesões graves e 87% de lesões clinicamente leves ou ausentes; no 2º trimestre 10% de lesões graves e 90% de lesões clinicamente leves ou ausentes; no 3º trimestre as lesões são leves ou ausentes.

 

Curva dos anticorpos

Os anticorpos da classe IgG aparecem 1 a 2 semanas após a infecção e persistem por toda a vida. A detecção desses anticorpos IgG em mulheres, indicando infecção passada, afasta o risco delas produzirem infecção congênita. Mulheres com sorologia negativa devem ser consideradas grupo de risco e acompanhadas durante toda gestação.
Os anticorpos da classe IgM geralmente aparecem em torno de 5 dias após o contato com o parasito, desaparecendo depois de semanas ou meses. Em alguns casos, títulos residuais podem permanecer detectáveis por um tempo superior a 1 ano, o que invalida a presença da IgM como indicador de infecção recente.

 

Interpretação dos testes em adultos

1 - IgM negativo (-) e IgG negativo (-): ausência de contato com o T.gondii ou infecção muito recente, dentro do prazo de poucos dias em que a resposta imunológica ainda não está detectável.

2 - IgM negativo (-) e IgG positivo (+): infecção pregressa com o T.gondii há mais de 1 ano.

3 - IgM positivo (+) e IgG negativo (-): este resultado deve ser interpretado com cuidado – pode ser uma infecção aguda na fase inicial em que ainda não positivou a IgG (o que é raro) ou um IgM falso positivo (o que é mais comum). Será necessário colher nova amostra depois de duas semanas: se tratava-se realmente uma infecção na fase inicial, esta segunda amostra deverá continuar com IgM positivo e agora com o IgG também positivo; se o IgG se mantiver negativo, indica falso positividade do IgM.

4 - IgM positivo (+) e IgG positivo (+): este resultado é sugestivo de infecção recente. A confirmação deve ser feita com o teste da avidez.

 

Teste da avidez do IgG

Este teste baseia-se na crescente avidez que os anticorpos apresentam pelo antígeno ao longo do tempo. É um auxiliar valioso para o diagnóstico de infecção antiga: quando são encontrados anticorpos específicos da classe IgG com alta avidez (maior do que 60%), a infecção ocorrida já data de, pelo menos, 3 meses.

O resultado do teste com avidez baixa (menor do que 30%) sugere que a infecção seja recente, com menos de 3 meses, mas, em alguns casos, a avidez pode permanecer baixa por vários meses, o que impede uma interpretação segura.

 

Interpretação dos testes em recém-nascidos

No recém-nascido, o encontro de anticorpos da classe IgG não tem valor diagnóstico porque há transferência transplacentária da IgG materna. A presença de anticorpos IgM, que não tem passagem transplacentária, pode indicar infecção fetal, porem não é suficiente para o diagnóstico visto que o feto pode produzi-los só tardiamente. A pesquisa dos anticorpos da classe IgA no recém-nascido é útil, porque este ensaio apresenta maior sensibilidade do que o para a pesquisa de IgM.
Atualmente, contudo, o método de escolha para o diagnóstico de toxoplasmose congênita é a pesquisa do Toxoplasma pelo PCR, feito no sangue periférico do recém-nato ou no sangue do cordão umbilical.

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