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  • 01Fev
  • Informativo

As plaquetopenias

Nº 125 Fev - 2003

As plaquetas são fragmentos celulares anucleados de forma discóide oval-a-arredondada com diâmetro de 1,5-3,0 mm e que contém algumas dezenas de componentes com atuação no sistema hemostático. A sua função mais importante é a de selar aberturas na árvore vascular, para o que, estão adaptadas para aderir aos vasos sanguíneos lesados, agregar-se entre si e facilitar a geração de trombina. Estas ações contribuem para a hemostasia através da formação do tampão plaquetário e do seu reforço, graças à ação da trombina que converte o fibrinogênio em fibrina.
As plaquetas têm a produção controlada pela trombopoietina, sobrevivem por 8-10 dias, apresenta-se em número de 140.000-450.000/mm3 e estão sujeitas a uma variação circadiana, com os níveis mais elevados em torno do meio do dia.
Atualmente a contagem das plaquetas é feita por método eletrônico automatizado baseado na medição da impedância elétrica. Nas contagens com resultados dentro dos valores de referência, o coeficiente de variação (CV) dessa metodologia não ultrapassa 10%, enquanto na contagem manual/visual o CV gira torno de 30%.
A sua enumeração apresenta uma aplicação prática crescente nas considerações hemostáticas e em uma variedade de condições clínico/cirúrgicas, em particular para o diagnóstico das plaquetopenias e das plaquetoses.

 

Plaquetopenias espúrias

A aglutinação das plaquetas, devido ao um retardo na mistura do sangue ao anticoagulante no momento da coleta, pode ocasionar contagens eletrônicas falsamente baixas. Esta é a causa mais freqüente de pseudoplaquetopenias e a primeira que deve ser excluída.
O satelitismo plaquetário em torno dos neutrófilos é outra causa de pseudotrombocitopenia, por reduzir o número de plaquetas livres para serem contadas eletronicamente. Um auto-anticorpo IgG está aparentemente envolvido nesse evento, com especificidade contra o complexo glicoprotêico IIb/IIIa da membrana plaquetária e também contra o receptor Fc g dos neutrófilos.
A aglutinação plaquetária induzida pelo anticoagulante habitualmente utilizado é outra causa freqüente (0,1-0,2%) de plaquetopenias espúrias. O EDTA leva à quelação do cálcio e expõe antígenos a anticorpos dirigidos contra a membrana plaquetária, os quais produzem agregados plaquetários que geram contagens eletrônicas falsamente baixas.

 

Plaquetoses espúrias

A presença de eritrócitos pequenos (microesferócitos) e de fragmentos hemáticos (esquizócitos) ou leucocitários (incluindo células leucêmicas), pode ocasionar resultados falsamente elevados na contagem eletrônica das plaquetas.

 

Exame do esfregaço

O exame do esfregaço sanguíneo é um elemento valioso na identificação da causa dos resultados espúrios e também para o estudo da morfologia plaquetária.
Ele pode revelar a presença de plaquetas gigantes características de algumas trombocitopenias congênitas, como na síndrome de plaquetas cinza, na síndrome de Bernard-Soulier e a anomalia de May-Hegglin; plaquetas pequenas como as encontradas na síndrome de Wiskott-Aldrich; esquizócitos e hemácias fragmentadas compatíveis com púrpura trombocitopênica trombótica e com coagulação intravascular disseminada; e ainda macrocitose e hipersegmentação neutrofílica características da deficiência de B12 e/ou ácido fólico.
A existência de macroplaquetas demonstra uma taxa de renovação acelerada e ocorre quando há grande destruição periférica, como nos casos de PTI e hiperesplenismo.

Trombocitopenias hereditárias

Síndrome de Fanconi

Anemia aplástica tipicamente fatal, apresentando-se na infância junto com outras anomalias congênitas. Pode apresentar-se como trombocitopenia hipoplásica isolada em adultos, associada a baixa estatura e aumento da pigmentação cutânea

Trombocitopenia com ausência do rádio (TAR)

Trombocitopenia amegacariocítica grave na infância; leve e intermitente nos adultos

Síndrome de Bernard-Soulier

Plaquetas gigantes com adesividade e agregação anormais. Os heterozigotos são assintomáticos, com plaquetas grandes mas com número e função normais.

Síndrome das plaquetas cinza

Plaquetas grandes e pálidas com diminuição das proteínas dos grânulos alfa. Há trombocitopenia e agregação anormal.

Anomalia de May-Hegglin

Assintomática. Plaquetas gigantes, trombocitopenia ocasional e inclusões leucocitárias características.

Síndrome de Alport

Plaquetas gigantes, trombocitopenia grave associada a perda da audição e nefrite intersticial. Morbidade e mortalidade devidas a insuficiência renal progressiva.

Síndrome de Wiskott-Aldrich

Trombocitopenia com plaquetas muito pequenas, associada a deficiência imunológica e eczema

Síndrome de Kasabach-Merrit

Há consumo plaquetário por coagulação intravascular localizada dentro de tumor vascular congênito

Trombocitopenia isolada

Trombocitopenia geralmente leve devida a produção ineficiente de plaquetas

 

Trombocitopenias adquiridas

Aplasia megacariocítica

Associada a anemia aplástica. A aplasia megacariocítica pura é muito rara. Pode ser provocada pelos quimioterápicos e por radiações ionizantes. Pode ser decorrente de infiltração medular por hemopatia maligna

Trombocitopenia por infecção

Uma das causas comuns de trombocitopenia: associada a citomegalovírus, Epstein-Barr, hantavírus, micoplasma, micobactéria, HIV, dengue, Erlichiose, malária, CIVD por infecção bacteriana e pós-vacinação para sarampo.

Trombocitopenia na gravidez

A trombocitopenia assintomática é freqüente (5%) próximo ao termo ou no período periparto; a sintomática é rara. Na pré-eclampsia acompanha a sua gravidade.

Púrpura trombocitopênica trombótica

O mesmo que síndrome hemolítico urêmico: trombocitopenia + anemia hemolítica microangiopática+ sinais e sintomas neurológicos + função renal anormal + febre

Púrpura de Werlhof (PTI)

O diagnóstico desta trombocitopenia idiopática é feito por exclusão. É mais comum em crianças e tem freqüente resolução espontânea. Em adultos acomete mais o sexo feminino e a resolução espontânea é infrequente

Trombocitopenia droga-induzida

A causada pela heparina merece atenção especial. A lista das drogas que podem causar trombocitopenia é extensa, incluindo muitas de uso comum. Veja relação no Manual de Exames de Laboratório – IACS

Trombocitopenia nutricional

Produção ineficiente decorrente de deficiência de B12 ou de ácido fólico

Trombocitopenia por hiperesplenismo

Excessiva destruição periférica das plaquetas, habitualmente associada a esplenomegalia.

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