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A interferência dos anticorpos endógenos nos resultados dos testes de laboratório

Nº 127 Mai - 2003

Os anticorpos endógenos capazes de interferir nos resultados dos testes podem ser diferenciados em duas categorias: os anticorpos heterófilos e os anticorpos humanos específicos anti-animal (AHEAA).
Os anticorpos heterófilos são produzidos em resposta a um antígeno não específico, ou segundo outros autores, o termo anticorpo heterófilo é usado quando não existe história de tratamento medicinal com imunoglobulina animal ou de um imunógeno bem definido. Eles podem exibir multi-especificidade ou uma natural atividade de fator reumatóide, e possuem baixa afinidade.
Os AHEAA são produzidos em resposta a um imunogênio específico, como é o caso dos produzidos após tratamento com uma imunoglobulina animal, e possuem uma afinidade maior do que os anticorpos heterófilos. É possível a interferência destes anticorpos com os utilizados nas reações de um teste de laboratório, em decorrência de reatividade cruzada inter-espécies. Por exemplo, pessoas que manuseiam animais domésticos socialmente, por esporte ou profissionalmente, poderão mostrar atividade contra imunoglobulinas de camundongo, coelho ou ovelha, que façam parte de um ensaio laboratorial.
É, também, possível a coexistência de ambos anticorpos, os heterófilos e os AHEAA, no mesmo paciente.

 

Hemaglutinação

É reconhecido, desde há várias décadas, a possibilidade da ocorrência de respostas anamnésticas após o uso de antitoxina tetânica bovina. Em um relato referente ao soro de um paciente atópico, foi demonstrada a hemaglutinação com imunoglobulinas de camondongo, rato, porco da índia, gato, cavalo, coelho, vaca, ovelha, macaco Rhesus, leão, tigre, elefante e coiote. Para dizer o mínimo, há evidência de uma ampla faixa de sistemas heterófilos nos humanos dos quais estamos totalmente desprevenidos, possibilitando que a exposição a um antígeno possa causar uma resposta anamnéstica com outro antígeno por reação cruzada.

 

A Interferência dos testes

A direção e a magnitude da interferência desses anticorpos endógenos são difíceis de predizer. Eles podem se ligar ao anticorpo analítico e inibir a sua ligação ao analito, e podem, também, bloquear ou aumentar a separação do complexo antígeno-anticorpo do antígeno livre, especialmente quando são utilizados anticorpos antiespécies nos sistemas de separação.
O significado clínico da ocorrência de anticorpos interferentes é grande, pois os profissionais do laboratório não dispõem de meios confiáveis para detectar a sua presença. A literatura aponta vários ensaios que podem ser afetados, entre os quais: PSA, anti-HIV, CEA, calcitonina, estradiol e progesterona, TSH, CA 125, HBsAg, T3 livre, T4 livre, CKMB, PCR, HGC e troponina. Resultados espúrios nestes testes podem não ser devidos a uma falha do laboratório, mas decorrentes de anticorpos endógenos presentes na amostra do paciente.

A ocorrência desses interferentes não é infrequente. Em nosso serviço, ao longo dos últimos quatro meses identificamos dois casos de grande elevação do PSA associada à presença de anticorpos heterófilos, a qual era secundária a mononucleose infecciosa. Nos dois casos, a medida em que os anticorpos heterófilos foram declinando, acompanhando a resolução do quadro infeccioso, o PSA foi retornando ao nível normal.
Em relação ao HIV, os anticorpos heterófilos têm sido implicados como importantes causadores de resultados falsos positivos do HIV ELISA, e detectados em quase 50% das amostras em que o Western blot para HIV revelou coloração inespecífica ou falso positiva.

 

Conclusão

Os anticorpos endógenos freqüentemente passam desapercebidos em detrimento do paciente. Por esta razão, é de todo conveniente enfatizar a importância dos seus possíveis efeitos danosos, enquanto não dispomos de meios práticos de caracterizar a especificidade, detectar as interferências e removê-los das amostras clínicas.
Valores laboratoriais espúrios podem conduzir a erros de diagnóstico e a manuseio inadequado da doença do paciente. Desta forma, os médicos assistentes devem contatar o laboratório quando se deparam com resultados inesperados (ou muito baixos ou muito altos em relação à expectativa) na tentativa de determinar o verdadeiro escopo do problema e procurar o meio efetivo de controlá-lo.

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