Nº 149 - Janeiro de 2006

 

AVANÇOS NA QUALIDADE DO TESTE DO PEZINHO

As doenças metabólicas hereditárias, também chamadas “erros inatos do metabolismo”, começaram a ser identificadas no início do século passado. No entanto, é só na altura de 1964 que inicia-se, nos EE.UU., um projeto piloto de triagem para a fenilcetonúria. Hoje, a triagem dessas anomalias metabólicas está difundida globalmente, havendo no Estado de São Paulo a obrigatoriedade legal de ser feita, pelo menos, a pesquisa de fenilcetonúria, hemoglobinopatias e hipotireoidismo congênito, em todas as crianças aqui nascidas.

A conveniência do rastreio reside no fato do recém-nascido poder estar com aparência e comportamento normais, porém acometido de alguma doença que irá se manifestar mais tarde, e ocasionar sérios danos. Algumas dessas doenças podem ser controladas ou tratadas com medidas simples e que evitam ou minimizam o ulterior comprometimento da saúde.

Através do chamado “Teste do Pezinho”, podem ser rastreadas inúmeras doenças, tanto erros inatos do metabolismo, como outras não hereditárias, como é o caso de algumas infecções de transmissão vertical.

Após a introdução da metodologia da espectrometria de massas em tandem, o IACS reorganizou os diversos tipos de exames em três grupos de testes:

   1- TESTE DO PEZINHO AMPLIADO
As doenças rastreadas neste grupo são: Fenilcetonúria (PKU), Aminoacidopatias (cromatografia dos aminoácidos), Hipotiroidismo congênito (TSH e T4), Hemoglobinopatias (avaliação das Hb), Hiperplasia congênita das supra-renais (17-OH-progesterona) e Fibrose cística (ITR).

   2- TESTE DO PEZINHO MASTER
Neste grupo, além das citadas no teste do pezinho ampliado, são também rastreadas mais as seguintes doenças: Galactosemia (galactose e galactose-1-fosfato), Deficiência de biotinidase (atividade da biotidinase), MCAD (pesquisa da mutação G985A da MCAD), Deficiência de G6PD (atividade da glicose-6-fosfato desidrogenase), Toxoplasmose congênita (IgM anti-Toxoplasma gondii), Sífilis congênita (IgM anti-Treponema pallidum), Citomegalovirose (IgM anti-citomegalovírus), Doença de Chagas (anticorpos totais anti-Trypanosoma cruzi) e Rubéola congênita (IgM anti-vírus da Rubéola).

   3- TESTE DO PEZINHO EXPANDIDO
Neste grupo, além das citadas nos testes do pezinho ampliado e master, são rastreadas as Aminoacidopatias, os Distúrbios do ciclo da uréia e os Distúrbios das acilcarnitinas, utilizando-se a metodologia da espectrometria de massas em tandem.

A ESPECTROMETRIA DE MASSAS EM TANDEM

Até recentemente, o método para estudo dos defeitos da beta-oxidação dos ácidos graxos era a cromatografia gasosa, metodologia que não permite a analise de compostos iônicos de alta polaridade, como as acilcarnitinas. Com o advento da espectrometria de massas, a extensão dessa metodologia a aminoácidos e a introdução de protocolos automatizados que permitem o exame de um grande número de amostras, estabeleceram-se as bases para o seu uso na triagem neonatal de aminoacidopatias, acidemias orgânicas e transtornos da oxidação dos ácidos graxos.

O espectrômetro de massas é um equipamento utilizado para separar e detectar fragmentos ionizados de moléculas, ou moléculas e átomos inteiros também ionizados, de acordo com a sua relação massa/carga. O conjunto de três espectrômetros de massa em tandem (posicionados em fila um atrás do outro), com analisador quadrupolar, permite reconhecer pares transicionais, como, por exemplo, o espectro de todos os íons precursores de um determinado produto (utilizado no perfil de acilcarnitinas), ou o espectro de todos os íons precursores que perdem um fragmento neutro comum (utilizado no perfil de aminoácidos).

A cromatografia gasosa acoplada a espectrometria de massas em tandem, permite o diagnóstico das deficiências de enzimas do transporte e da beta-oxidação mitocondriais de ácidos graxos, cujos portadores podem ficar sem diagnóstico porque o aparecimento das manifestações clínicas muitas vezes só acontece após jejum prolongado, e em parte, devido a dificuldade diagnóstica, pois os exames laboratoriais de rotina não ajudam o clinico a suspeitar desse defeito metabólico.

Para o diagnóstico e o acompanhamento de aminoacidopatias houve também melhoras significativas com uso dessa nova metodologia. Em relação a triagem para PKU, a taxa de falsos positivos com uso da espectrometria de massas em tandem é cerca de 100 vezes menor, quando comparada com o método fluorimétrico.