144  Julho - 2005

 

EXAME DE SEXAGEM FETAL

O teste de sexagem fetal permite a identificação do sexo da criança com 8 semanas de gravidez. Este exame usa tecnologia baseada em biologia molecular e em recentes avanços sobre a biologia dos ácidos nuclêicos. No fim dos anos 80 e ao longo da década de 90, trabalhos em pesquisa básica liderados por Bianchi demonstraram que células do feto estão presentes na circulação materna, embora em quantidades mínimas. Posteriormente, o grupo de Lo et al. demostrou que há presença de DNA fetal circulando livre no sangue materno. Hoje, sabe-se que o fluxo de células e de DNA ocorre de maneira bi-direcional durante a gravidez.

O DNA fetal é rapidamente clareado da circulação materna, com meia vida máxima em torno de 2 horas. Entretanto, como há aporte constante de DNA fetal para a mãe durante a gravidez, esse DNA pode ser quantificado e identificado. Entre a 11a e a 17a semana de gravidez, 3,4% de todo o DNA presente na circulação materna é de origem fetal. Com o avançar da gravidez, a quantidade do DNA fetal na mãe aumenta, chegando a representar 6.2% entre a 37a e 43a semana gestacional.

Este novo conhecimento abriu uma oportunidade para aplicação clínica e, como é um método não invasivo, despertou grande interesse para uso em diagnóstico pré-natal. Encontram-se em investigação o uso para determinação do genótipo Rh(D), a β-talassemia, a acondroplasia e a síndrome de Down. Mas a primeira aplicação a ganhar o campo clínico, foi justamente a determinação do sexo do concepto, com o uso de sondas específicas.

O teste mostrará a presença de segmento do DNA masculino (região definida do cromossomo Y) em caso de gravidez de feto do sexo masculino. No caso de feto feminino haverá a ausência de segmento amplificável. Este teste encontra-se em estágio inicial, mas já apresenta um índice de acerto acima de 99% em pacientes com 8 semanas ou mais de gravidez. O índice de acerto varia conforme a idade gestacional:

INDICE DE ACERTO

FASE DA GRAVIDEZ FEMININO MASCULINO
< 8ª SEMANA 74,00 % > 99,00 %
8ª - 10ª SEMANA 99,00 % > 99,00 %

Estudos preliminares indicam que 5% dos testes apresentam resultados inconclusivos, sendo nestes casos, necessária uma 2a coleta, no mínimo após 2 semanas, para obter-se um resultado definitivo.

O sangue para o exame é coletado em EDTA. Soro não deve ser usado, pois a lise de células durante a coagulação libera DNA que influencia nas análises. Os resultados ficam prontos em até uma semana.

Outros fatores influenciam o resultado do teste:

a-Gravidez Gemelar.
Nesta eventualidade as possibilidades são variáveis:

Para gêmeos univitelinos (idênticos) o resultado é válido para ambos. Para gêmeos fraternos (mais de uma placenta), quando o resultado do teste for menino, sinaliza que ao menos um dos gêmeos é menino. Se o resultado do teste for menina, indica que ambas as gêmeas são meninas.

b-Abortamento subclínico
No caso do resultado encontrado ser um teste positivo para cromossomo Y (feto masculino) e posteriormente verificar-se ser um feto feminino, as causas são menos claras. Uma possibilidade que deve ser levantada é se a mãe foi submetida a procedimento de hiperovulação e/ou fertilização “in vitro”, com gravidezes múltiplas (2 ou mais embriões). Nestes casos não é incomum que um ou mais embriões não sobrevivam; e já existem estudos mostrando que a detecção do DNA destes embriões pode persistir por até 2 semanas, depois de, por exemplo, um episódio de aborto. Se o embrião abortado for do sexo masculino, estará explicada a incoerência entre o resultado do teste de sexagem fetal e o sexo do feto em progressão. Outra explicação seria se a mãe houvesse recebido transfusão de sangue ou transplante de órgão de um homem.

c-Causa desconhecida
Para o resultado de sexo feminino, que posteriormente verifica-se ser uma gravidez de feto masculino, a explicação mais simples é a falta de sensibilidade do teste. Como a sensibilidade do teste é controlada para ser a mesma em todas as análises, provavelmente havia uma quantidade muito pequena de DNA fetal no plasma materno no momento da coleta, que o teste não foi capaz de detectar. Ainda não se sabe o que faz a quantidade de DNA fetal ser maior ou menor no sangue da mãe, por isso ainda não é possível levantar as causas deste tipo de falha. No entanto, é fato que a quantidade de DNA fetal vai aumentando com o avançar da gravidez; portanto, supõe-se que o tamanho do feto e a vascularização placentária relacionam-se diretamente com a quantidade de DNA fetal no plasma materno.

Vale ressaltar que na prática estes erros são raríssimos, mas é através do estudo deles que o teste pode ser aprimorado. No sentido de aprimorar nossa técnica e atualizar nossos dados, ficaremos muito agradecidos se puder nos informar o sexo fetal após a confirmação pelo ultra-som ou o nascimento. Asseguramos que os dados serão mantidos em absoluta confidencialidade, podendo ser utilizados em publicações científicas, sempre protegendo-se o anonimato das participantes. Para comunicar o resultado do ultra-som ou nascimento, saber do andamento do exame ou sanar dúvidas e obter maiores informações:

Dr.Flavio Ferraz de Paes e Alcântara - Fone (13)3281 3000, E-mail: iacs@iacs.com.br

Bibliografia:

  1. Levi, JE., Wendel, S., Takaoka, DT. (2003). Determinação Pré-natal do Sexo Fetal por meio da Análise de DNA no Plasma Materno. Rev Bras de Ginec e Obst. 25(9): 687-690
  2. Chan, KCA., Zhang, J., Hui, BYA., Wong, N., Lau, TK., Leung, TN., Lo, KW., Huang, DWS., and Lo, YMD. (2003) Size Distributions of Maternal and Fetal DNA in Maternal Plasma. Clinical Chemistry 50:1 88–92 (2004) K.C. Allen
  3. Jimenez, DF., Tarantal, AF. (2003). Quantitative analisis of male fetal DNA in maternal blood serum of gravid rhesus monkeys (macaca mulata). Pediatr Res Vol. 53(1):18-23.
  4. Bianchi, DW. and Romero, R. (2003). Biological implications of bi-directional fetomaternal cell traffic: a summary of a National Institute of Child Health and Human Development-sponsored conference. The Journal of Maternal–Fetal and Neonatal Medicine 2003;14:123– 129.