138  Out/Nov - 2004

PLAQUETOPENIAS NA GRAVIDEZ

Em virtude da precisão proporcionada pelos contadores automáticos de células, o encontro de plaquetopenia deixou de ser um evento excepcional, sendo na mulher grávida uma anormalidade relativamente comum e, em geral, benigna. O diagnóstico diferencial das principais causas de trombocitopenias na gravidez inclue a pseudotrombocitopenia, trombocitopenia gestacional, doença hipertensiva específica da gravidez, síndrome HELLP, púrpura trombocitopênica imune, púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico urêmico.

Pseudotrombocitopenia

É um artefato de técnica comum, associado a auto-anticorpos, ao anticoagulante utilizado no tubo ou a problemas técnicos no momento da coleta do sangue. Para esclarecê-lo, o IACS revisa rotineiramente os esfregaços de todos os hemogramas com alguma anormalidade, sendo a maioria das pseudotrombopenias resolvida sem necessidade de nova coleta.

Trombocitopenia gestacional

Habitualmente a plaquetopenia gestacional, quando moderada, não traz riscos nem a mãe nem ao feto e a conduta é o seu monitoramento periódico. É responsável por 70% dos casos e parece ser devida ao consumo acelerado de plaquetas. O seu diagnóstico é de exclusão e a suspeita é mais consistente quando apresentar as características:

1 – grau de trombocitopenia moderado, em geral > 70.000 mm3

2 – pacientes assintomáticos, sem historia de sangramentos.

3 – não existe história de plaquetopenia antes da gravidez. Na trombocitopenia gestacional embora a trombocitopenia possa ocorrer no primeiro trimestre, tipicamente começa no segundo ou terceiro trimestre. A existência contagem de plaquetas no início da gravidez ou na pré-concepção é muito importante no diagnóstico diferencial desta desordem com PTI, com a qual pode ser confundida. Pessoas com PTI geralmente têm histórias de sangramento e apresentam trombocitopenia em hemograma feito antes da gravidez. Não existe um teste específico para o diagnóstico diferencial entre as duas patologias.

4 – a contagem das plaquetas volta ao normal entre duas semanas a três meses após o parto.

Hipertensão induzida pela gravidez (Doença hipertensiva específica da gravidez [DHEG] )

A trombocitopenia pode ocorrer por causa da DHEG e associada à pré-eclampsia ou eclampsia. A trombocitopenia pode ser uma manifestação precoce da pré-eclampsia e sua queda constante é um sinal de piora da doença hipertensiva. No laboratório, além da trombocitopenia, o Dímero D está aumentado em 40% das mulheres com pré-eclampsia. O tempo de protrombina (TP), tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPa) e fibrinogênio em geral estão normais.

Síndrome HELLP

A síndrome HELLP (Hemolysis, Elevated Liver enzymes, Low Platelet count) tem sido considerada uma variante da pré-eclampsia/eclampsia embora nem toda síndrome HELLP se enquadre no critério de pré-eclampsia, porque 15% das pacientes têm pressão diastólica normal e 15% tem proteinúria mínima ou ausente no exame de urina. A pré-eclampsia e a HELLP ocorrem principalmente no terceiro trimestre. As plaquetas raramente ficam abaixo de 20.000 mm3 e  voltam aos valores normais 24/48 horas após o parto.

O diagnóstico de laboratório desta síndrome é feito pela presença de anemia hemolítica microangiopática com bilirrubina aumentada, presença de esquizócitos, plaquetopenia em geral < 100.000/mm3, enzimas hepáticas e LDH aumentados. No exame de urina pode-se ou não encontrar proteinúria.

Púrpura trombocitopênica imune (PTI)

A PTI acomete principalmente crianças. A doença crônica é mais freqüente na segunda ou terceira década da vida e predomina em mulheres. A PTI ocorre entre 3% e 5% dos casos de trombocitopenia associados a gravidez, e seu diagnóstico é de exclusão porque não há sintomas nem sinais patognomônicos ou teste de laboratório específico. No entanto, a suspeita é maior quando são encontrados:

1 - Hemograma com plaquetopenia feito antes da gravidez ou no seu início, ajuda muito se a contagem for < 100.000 mm3, pois sugere PTI, porque na plaquetopenia gestacional, em geral, as plaquetas não são afetadas até o segundo ou terceiro trimestre. Se a contagem de plaquetas estiver <70.000mm3 o diagnóstico de PTI é mais provável, e, se estiver < 50.000mm3 há quase certeza. Na ausência de um hemograma pré-gestacional, o achado de uma trombocitopenia <100.000 mm3 no início da gestação, com declínio na contagem durante a progressão da gestação, é mais consistente com PTI

2 - Exclusão de outras desordens sistêmicas ou drogas reconhecidamente associadas com trombocitopenias

3 - Ausência de esplenomegalia e linfadenopatias

A gravidez não parece piorar o curso da PTI, mas nos casos de plaquetopenia severa, pode haver complicações tanto para a mãe como para o feto.

Para o diagnóstico de outras condições imunológicas, sugere-se a pesquisa de anticorpo anti-núcleo e da síndrome antifosfolípide. O TSH também é interessante, porque uma boa proporção das mulheres com PTI pode ter provas de função da tireóide anormais.

Microangiopatias: Púrpura trombocitopênica trombótica (PTT) e Síndrome hemolítico-urêmico (SHU)

Estas duas patologias se caracterizam por anemia hemolítica com hematócrito <30%, grande quantidade de esquizócitos, trombocitopenia em geral < 100.000mm3 e comprometimento neurológico e/ou renal.

Na PTT encontramos trombocitopenia severa, anemia hemolítica, febre e predominância dos sintomas neurológicos como dor de cabeça, confusão, desorientação e convulsões, entre outros.

No SHU encontramos trombocitopenia, anemia hemolítica e predominância do quadro de insuficiência renal com aumento de uréia e creatinina, proteinúria , hematúria e oligúria ou anúria. 

O diagnóstico diferencial destas microangiopatias com pré-eclampsia e HELLP é difícil, o que pode retardar o diagnóstico e o tratamento. Em geral a PTT aparece cedo na gravidez (24 semanas), a pré-eclampsia e HELLP no terceiro trimestre, e o SHU em 90% das vezes ocorre após o parto.

Outras causas de trombocitopenia incluem infecções virais, hiperesplenismo, CIVD, problemas congênitos, drogas de abuso e medicamentos, entre eles antibióticos, antivirais, antiinflamatórios, analgésicos, anticonvulsivantes, diuréticos e outros como heparina, metildopa, digitálicos, ranitidina, cimetidina, procainamida, ciclosporina, etc. A lista completa de interferentes está no Manual de Exames de Laboratório do IACS.