Nº 136  Jul / Ago - 2004

 

MICROALBUMINÚRIA E A ELEVADA MORTALIDADE CARDIOVASCULAR E RENAL

 

Em indivíduos normais, a albumina excretada pela urina está em quantidades menores do que 30 mg/24 horas. A microalbuminúria é definida como uma excreção entre 30 e 300 mg/24 horas (20 a 200 ug/minuto), portanto acima dos valores normais mas abaixo do limite de detecção dos métodos tradicionais de pesquisa de albuminúria, como as fitas reagentes.

O desenvolvimento da microalbuminúria e a subseqüente proteinúria devem-se a fatores como:

  1. alterações da filtração glomerular de proteínas.

  2. aumento persistente da pressão intraglomerular.

  3. causas adicionais, como o fator de permeabilidade das células endoteliais

Quando estes agentes interagem, proporcionam aumento da passagem de albumina pelas paredes glomerulares e provocam um aumento da sua concentração na urina.

A etiologia principal da microalbuminúria é o aumento da taxa de filtração glomerular pela perda da seletividade da membrana. Um segundo elemento é o aumento da pressão capilar glomerular, o qual pode ocorrer antes mesmo que ocorra aumento da pressão arterial sistêmica. Esta pressão intraglomerular aumentada contribui para a ativação de fatores de crescimento localizados nas células endoteliais e mesangiais, os quais têm propriedades vasoconstritoras que alteram a conformação da membrana glomerular, acarretando o surgimento da microalbuminúria.

MICROALBUMINÚRIA: UM TESTE DE VALOR PREDITIVO

A microalbuminúria está associada com elevada mortalidade por doença cardiovascular em pacientes diabéticos e não diabéticos. A associação entre a sensibilidade à insulina e microalbuminúria tem sido demonstrada ser a mesma em indivíduos normotensos e hipertensos. Alguns estudos sugerem uma relação entre resistência à insulina e microalbuminúria em indivíduos não diabéticos, que é parcialmente dependente da pressão arterial, glicemia e obesidade.

A microalbuminúria é um importante fator de risco associado a nefropatia, retinopatia e doença cardiovascular, sendo um precioso marcador de dano vascular.

Microalbuminúria e diabetes

A incidência de microalbuminúria é muita alta no diabetes tipo 2, ocorrendo já no momento do diagnóstico do diabetes em um grande número de indivíduos..

O diabetes tem sido demonstrado ser a principal causa de doença renal no mundo, sendo, portanto, de grande relevância a identificação precoce dos pacientes com elevado risco de desenvolver nefropatia diabética. Isto é possível pela triagem sistemática através da avaliação da microalbuminúria. Em relação às crianças diabéticas, cerca de 20% delas podem desenvolver microalbuminúria como um sinal precoce de nefropatia incipiente.

A retinopatia diabética está, também, comprovadamente associada com a microalbuminúria e com a hemoglobina glicosilada.

Microalbuminúria e doença cardiovascular

A presença de microalbuminúria é uma forte mensagem da existência de risco aumentado de doença cardiovascular. 

Estudos demonstram que a microalbuminúria se associa com a resistência à insulina. Talvez esta associação deva-se a um fator genético e seja expressão da disfunção endotelial na macrocirculação, causando a doença coronariana, e na microcirculação, causando a nefropatia diabética.

A microalbuminúria tem um forte valor preditivo para doença cardiovascular e renal, pois existe uma associação importante com os fatores de risco para danos vasculares mínimos e máximos, como a elevação da pressão arterial, o descontrole glicêmico, a duração do diabetes, a dislipidemia, a hipertrofia ventricular esquerda e a resistência à insulina.

Microalbuminúria e hipertensão arterial

Estudos demonstram que os diabéticos insulino-dependentes normotensos microalbuminúricos apresentam maior pressão média e carga pressórica durante a monitorização ambulatorial da pressão arterial, sendo estas variáveis melhor relacionadas com a excreção de albumina urinária.

A microalbuminúria está correlacionada com a elevação da pressão arterial, não só em diabéticos como também em pacientes previamente hipertensos. Parece existir um sinergismo entre pacientes idosos e diabéticos com a pressão arterial, aumentando o prognóstico de mortalidade e morbidade por doença cardiovascular.

Alguns estudos sugerem que a hipertensão causa dilatação glomerular, lesões glomerulares  segmentares e proteinúria por isquemia crônica.

RECOMENDAÇÕES

A Organização Mundial de Saúde recomenda uma triagem anual para microalbuminúria em todos pacientes com diabetes tipo 1 por mais de 5 anos. Os com diabetes tipo 2 devem ser pesquisados no momento do diagnóstico e, a partir de então, anualmente.

  • Para os casos positivos são recomendadas algumas medidas:

  • Controle rigoroso da glicemia

  • Reduzir a pressão arterial, se estiver elevada

  • Abolir o fumo

  • Preconizar exercícios regulares

  • Controlar o nível dos lipídios plasmáticos

  • Avaliar o uso de pequenas doses de aspirina, inibidores da ACE ou antagonistas da AII.

VALORES REFERENCIAIS

O material utilizado para a dosagem da microalbuminúria é a urina de 24 horas, recomendando-se que, no dia da coleta, não sejam realizados exercícios físicos vigorosos. Falsos positivos podem ser obtidos se a coleta for feita após exercícios vigorosos ou na vigência de patologias renais, como glomerulonefrite ou infecções.

         Os valores referenciais são:

Níveis desejáveis  = abaixo de 15 ug/min

Níveis aceitáveis   = 16 a 30 ug/min

Microalbuminúria : creatinina = abaixo de 30 mg de albumina : g de creatinina