Nº 134  Abr / Mai - 2004

 

ERVAS MEDICINAIS E LABORATÓRIO II

Em continuação ao boletim anterior, são aqui abordadas outras ervas, não tão conhecidas, mas não menos importantes pelos seus efeitos colaterais e alterações em exames de laboratório.

Kava  (Piper methysticum)

É utilizada como ansiolítico, para insônia e estresse. Apresenta efeitos aditivos com depressores do SNC, álcool e anestésicos, podendo levar a sedação profunda. Associada ao alprazolam pode induzir ao coma. É conhecida por seus efeitos hepatotóxicos quando utilizada por períodos longos ou em dosagens altas, com alterações significativas dos testes de função hepática. Há relatos de leucopenia e plaquetopenia na administração crônica da droga. Não deve ser dada a crianças menores de 12 anos nem a pacientes que tenham leucopenia ou plaquetopenia.

O FDA adverte sobre a toxicidade hepática potencial de qualquer produto que contenha Kava. Cautela adicional para pessoas com doença hepática prévia e em pré operatórios por causa da anestesia. Em pessoas com alterações dos testes de função hepática sem explicações, a utilização deste produto deve ser investigada.

Chaparral (Larrea tridentata)

É uma erva utilizada como antioxidante e que pode provocar inflamação aguda do fígado com quadro clínico e laboratorial de hepatite. Há casos descritos de colestase,  e até mesmo necrose hepática. A hepatotoxicidade da droga tem valor aditivo se o paciente estiver tomando medicamentos que afetam a função hepática, como amiodarona, esteróides anabólicos, cetoconazol e metrotexate entre outros. O FDA adverte do perigo em consumir esta droga.

Mistletoe (Viscum álbum)

É um parasita de árvores e utilizada no tratamento de suporte principalmente para o câncer, onde alguns componentes têm atividade antineoplásica, mas, ainda é necessário uma melhor investigação para avalizar o seu uso. Apresenta efeito aditivo com antihipertensivos, e antagônicos com glicosídeos cardíacos e antiarrítmicos. Existem casos descritos com alterações da função hepática. Pode levar também a uma leucocitose com eosinofilia e a uma diminuição do INR em pessoas tratadas com warfarina. Aumenta a uréia e a creatinina.

Germander (Teucrium chamaedrys)

Derivado da parte aérea da planta, é utilizado como tônico geral e para perder peso. Tem sido relatada a hepatoxicidade com alterações das provas funcionais hepáticas. Foi descrito também quadro de hepatite colestática aguda com aparecimento transitório de anticorpo antimitocondria. Por causa de vários casos documentados de insuficiência hepática aguda, seu uso é considerado não seguro.

Comfrey (Symphytum officinale)

Atualmente está proibido no Brasil pelos seus efeitos hepatotóxicos e carcinogênicos. Não há estudos clínicos que documentem efeitos positivos.

Kelp – iodine (família das Fucales e Laminariales)

É uma fonte  rica de iodo derivada de uma alga marinha. Muito utilizada para emagrecer e como antiinflamatório. Geralmente apresenta alterações típicas de hipertiroidismo, o TSH baixo e o T3 e T4 altos. Há casos descritos de trombocitopenia. É contraindicado para pessoas portadoras ou com propensão para o hipertiroidismo e naquelas que fazem uso de estimulantes.

Cromium (cromium trivalente)

É um oligoelemento encontrado em alimentos e utilizado como complemento por atletas para aumentar a massa muscular. Utilizado também por diabéticos e na obesidade. Está envolvido no metabolismo dos lípides, da glicose e da insulina. Sua ação parece ser a de potencializar a ação da insulina. No laboratório encontra-se diminuição da hemoglobina glicosilada, da glicose, do colesterol e um aumento discreto do HDL colesterol. Pacientes com disfunção renal ou hepática não devem utilizar rotineiramente a droga porque são mais sensíveis aos efeitos adversos, os quais incluem relatos esporádicos de insuficiência renal, dano hepático, dermatite e rabdomiólise.

Licorice (Glicyrriza glabra)

É uma erva utilizada  para vários fins, mas, em especial, para queixas gástricas. Os efeitos adversos da erva incluem alterações nos eletrólitos com perda de potássio e retenção de  sal e água . Potencializa a ação dos corticosteróides aumentando sua concentração plasmática. Provoca uma grande variedade de alterações laboratoriais como hipopotassemia, hipernatremia, aumento do cortisol e diminuição da aldosterona e renina (causa pseudoaldosteronismo). Interagem com diuréticos, glicosídeos cardíacos aumentando a perda de potássio, e com anticoagulantes aumentando o INR. Diminui a testosterona e apresenta uma possível interferência com terapia hormonal devido  a atividade estrogênica. É contraindicado em pacientes com problemas hepáticos, renais, na gravidez e em doenças cardiovasculares.

O risco maior das ervas medicinais é sua utilização sem o conhecimento do médico assistente. Como os efeitos prejudiciais não aparecem de imediato e sim  a longo prazo, eles nem sempre são correlacionados àquelas drogas.  Pacientes que usam estes produtos devem ter monitoramento bioquímico apropriado e ser investigados no sentido de excluir outras causas para as alterações funcionais ou laboratoriais encontradas ao acaso.

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