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Nº
133 Mar - 2004
ERVAS
MEDICINAIS E LABORATÓRIO I
A
auto-medicação com “produtos naturais” sem supervisão médica
vem aumentando dramaticamente nos últimos anos. Aparentemente,
isto está ocorrendo porque o imaginário popular julga aqueles
produtos como salutares e melhores do que os medicamentos da
medicina alopática.
Apesar
de pretensamente seguras, várias das ervas usadas podem ocasionar
problemas, ou por uma ação própria de algum dos seus
componentes ou por interação entre eles e medicamentos
utilizados concomitantemente.
Como
a produção destes produtos naturais não é controlada, eles
poderão apresentar contaminação, inclusive com metais pesados,
ou adulterações com algum medicamento farmacêutico utilizado na
medicina tradicional. Mesmo que a produção tenha
sido a adequada e sem contaminações, como conseqüência do uso
de algumas ervas poderão ser obtidos resultados diferentes do
esperado em alguns testes de laboratório.
GINKGO
(Ginkgo biloba)
O
extrato das suas folhas e sementes é utilizado na expectativa de
se obter uma melhora na circulação cerebral, na função sexual,
na audição e em problemas vasculares periféricos, dentre
outros.
Os
ingredientes ativos desta planta têm propriedades antioxidantes e
atuam como inibidores da função plaquetária. Seus componentes
podem apresentar interações com drogas que inibem a agregação
plaquetária, como os antiinflamatórios não esteróides, aspirina,
ticlopidina, clopidogrel, dipiridamol, vitamina E e
alho, podendo causar sangramentos espontâneos e, por isto, não
devem ser utilizados pelo menos duas semanas antes de qualquer
cirurgia. Com a warfarina ocorre diminuição do seu metabolismo e
conseqüente aumento da sua ação anticoagulante, o que, junto
com a diminuição da agregação plaquetária, pode ser causa de
hemorragias. Há descrição de caso de hemorragia por associação
do Gynkgo com acetominofeno, junto com ergotamina e cafeína.
No
laboratório, pode ser encontrado prolongamento do Tempo de
Sangramento, do TTPA, e do TP, com aumento do INR.
Outro
efeito é o de aumentar o clearance de insulina e dos
hipoglicemiantes orais em diabéticos não insulino-dependentes
(tipo 2), levando a um aumento da glicemia.
O
Ginkgo possui uma neurotoxina que, embora em concentração baixa,
é condição suficiente para contraindicar seu uso em pacientes
que têm convulsões, porque pode diminuir o efeito
anticonvulsivante de medicamentos como carbamazepina, fenitoína,
fenobarbital. O uso concomitante com medicamentos que diminuem o
limiar de convulsão também deve ser evitado, porque a erva pode
potencializar a ação daqueles medicamentos levando a distúrbios
de comportamento.
GINSENG
COREANO OU ASIÁTICO (Panax ginseng)
É
derivado da raiz da planta e utilizado visando efeito estimulante
do sistema imune, afrodisíaco, antidepressivo, dentre outros.
Em
geral esta erva é bem tolerada, mas é necessário atenção em
algumas condições. Pela sua ação antiplaquetária pode levar a
sangramentos espontâneos, com alteração do Tempo de
Sangramento, principalmente se houver associação com
antiinflamatórios não esteróides, com destaque para a aspirina.
Deve ser evitado, pelo menos, duas semanas antes de cirurgias.
É
antagonista da warfarina, alterando o TTPA e TP com encurtamento
do INR, o qual pode atingir níveis sub-terapêuticos e colocar o
paciente em risco de complicações tromboembólicas.
Esta
erva aumenta o efeito hipoglicemiante da insulina e dos
hipoglicemiantes orais, reduzindo a glicemia de jejum e a
hemoglobina glicosilada em diabéticos não insulino-dependentes.
Há casos descritos deste mesmo efeito em pessoas normais.
Alguns
trabalhos relatam aceleração da lipogênese hepática com
discreta diminuição dos níveis de colesterol, triglicérides e
LDL, e também discreto aumento do HDL.
Pode
apresentar efeito aditivo com estrógenos em mulheres na
menopausa, resultando em nódulos mamários difusos e sangramento
genital.
Interagem com a cafeína podendo aumentar a PA, e com
inibidores da MAO (fenelzina) podendo levar a sintomas semelhantes
a mania.
ERVA
DE SÃO JOÃO ( Hypericum perforatum)
É
preparada a partir do arbusto e usada quase exclusivamente no
tratamento da depressão leve ou moderada.
A
droga tem como principal mecanismo de ação o aumento de
atividade do citocromo hepático e intestinal. Isto faz com que o
metabolismo de, pelo menos, 50% de todos medicamentos que existem
no mercado sejam afetados, com redução da concentração plasmática
deles pela metade. Atua, também, inibindo a absorção de vários
medicamentos. Estes dois mecanismos de ação, ao diminuir
significativamente a concentração de várias drogas da medicina
tradicional, podem produzir graves conseqüências.
Antivirais
como o Indinavir tem a concentração diminuida em até 57% num
primeiro momento, e até 81% após 8 horas da administração.
Pacientes em tratamento para HIV, ao tomarem a Erva de São João
perdem a eficácia do medicamento e há, também, o risco do vírus
tornar-se resistente por causa do nível sub-terapêutico do
anti-viral. É provável que esta erva tenha o mesmo efeito que todos os inibidores da protease e com outras drogas que são
metabolizadas pela mesma via, como os inibidores da transcriptase
reversa.
A
ciclosporina é outra droga cuja diminuição da concentração
plasmática cai de 25% a 62%, levando, em todos os casos, a
problemas de rejeição do órgão transplantado.
A
warfarina sofre redução do efeito anticoagulante por alteração
do INR.
Digoxina,
teofilina e anticonvulsivantes também apresentam valores plasmáticos
abaixo do esperado.
Da
mesma maneira, os anticoncepcionais orais apresentam concentrações
mais baixas com risco de gravidez e sangramentos genitais
inesperados.
Os
anestésicos em associação com esta erva provocam hipotensão
severa, o que contraindica o seu uso por, pelo menos, duas semanas
antes da cirurgia.
Com
antidepressivos e inibidores da MAO têm efeito aditivo, com tendência
à síndrome de excesso de serotonina.
Inibe
a absorção de ferro, induzindo a baixas concentrações plasmáticas.
As
enzimas hepáticas, ocasionalmente, poderão apresentar resultados
alterados.
ALHO
(Allium sativum)
Várias
são as propriedades atribuídas ao alho, o qual vem sendo
utilizado na hipertensão e para reduzir os lípides plasmáticos.
Estudos randomizados mostram que nessas duas situações os seus
efeitos são modestos.
Ele
atua como inibidor da agregação plaquetária podendo levar a
sangramentos espontâneos. Apresenta efeito aditivo com a
warfarina, que resulta em aumento do TP e do INR em pacientes
previamente estabilizados.
No
hemograma pode haver leucocitose.
Pode
baixar a concentração plasmática de ciclosporina e do
sequinavir.
A
glicemia pode apresentar valores mais baixos, principalmente
naqueles pacientes que estão tomando clorpropamida.
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