|
Nº
131 Nov / Dez - 2003
O
LABORATÓRIO E A SÍNDROME DO ANTICORPO ANTIFOSFOLIPÍDICO
O
fenômeno da transmutação do sangue de líquido em sólido
fascinou observadores por milênios. Hipócrates no De Carnibus e
Aristóteles no Metereologia, postularam que o evento se devia ao
esfriamento. Apenas em 1832, Johanes Müller identificou a substância
“fibrina” e Virchow denominou seu hipotético precursor solúvel
no plasma de “fibrinogênio”. Em 1905, Morawitz sintetizou os
conhecimentos da época na primeira formulação bioquímica da
coagulação. Ele hipotetizava que a tromboquinase (fator
tecidual) convertia a protrombina em trombina na presença de Cálcio;
a trombina, por sua vez, convertia fibrinogênio em fibrina.
O
interesse dos estudos iniciais estava voltado ao estudo das
coagulopatias e, nas épocas mais recentes o foco vem sendo
francamente desviado para as trombofilias.
Trombofilia não possui uma definição
internacional, mas o termo é comumente usado para descrever
alterações dos mecanismos hemostáticos, que provavelmente
predispõem à trombose. Ela pode ser adquirida, herdada, mista ou
de causa desconhecida.
A
SÍNDROME DO ANTICORPO ANTI-FOSFOLIPÍDICO ( SAAF )
A SAAF é a mais comum das doenças trombofílicas adquiridas.
Está associada a doenças tromboembólicas
(trombose venosa profunda ou arterial), trombocitopenia
(que paradoxalmente apresenta risco para trombose) e abortos
expontâneos de repetição (que são associados a trombose da
placenta). Pode ser encontrada em indivíduos aparentemente
normais ou nos portadores de doenças auto-imunes (artrite
reumatóide, lupus, anemia hemolítica auto-imune), doenças
neurológicas (coréia, enxaqueca, epilepsia, esclerose múltipla,
Guillain-Barré), quadros infecciosos (bacterianos, virais ou
parasitários) e após uso de alguns medicamentos (alguns
antibióticos, clorpromazina, fenitoina, hidralazina, interferon,
procainamida, quinidina). A SAAF é causada pela aquisição de
uma família heterogênea de anticorpos anti-fosfolipídeos IgM,
IgG e/ou IgA, que se ligam a proteínas plasmáticas com afinidade
por superfícies fosfolipídicas.
Os
dois principais anticorpos anti-fosfolipídeos são chamados:
anticoagulante lúpico e anti-cardiolipina.
O termo anticoagulante lúpico se
refere a um grupo heterogêneo de auto-anticorpos que reagem com
complexos fosfolipídeo-proteína. Prolongam a coagulação in
vitro dos testes que utilizam uma quantidade limitante de
fosfolipídeos para formar o coágulo, como o tempo de
tromboplastina parcial ativado [TTPA] e o dilute Russell viper
venon time [dRVVT]. A despeito do seu nome, os anticoagulantes
lúpicos estão envolvidos com eventos tromboembólicos e estão
mais associados à trombose venosa do que a arterial. No
microambiente da membrana celular in vivo, eles promovem uma maior
inibição dos processos anticoagulantes e, em decorrência,
trombose.
Os anticorpos anti-cardiolipina
reagem contra a cardiolipina, que é um fosfolipídeo mitocondrial
usado no teste do V.D.R.L. (Venereal Laboratory Research
Laboratory) para o diagnóstico de lues, mas não ocasionam o
prolongamento dos testes de coagulação. Podem ser dosados por
ELISA, e são mais associados a AVCI e infarto do miocárdio do
que a trombose venosa.
CRITÉRIOS
PARA DIAGNOSTICAR A SAAF
O diagnóstico definitivo da SAAF
requer a presença de pelo menos um critério clínico: trombose
vascular (um ou mais episódios de trombose arterial, venosa ou de
pequenos vasos) ou complicação de gravidez (abortos expontâneos
ou nascimentos prematuros) e pelo menos um critério laboratorial:
anticorpos anti-cardiolipina ou anticorpos anticoagulantes
lúpicos.
As
hipóteses propostas para explicar a ação dos anticorpos
anti-fosfolipídicos incluem: ativação das células endoteliais
com expressão de moléculas de adesão, lesão do endotélio
vascular mediada por oxidantes, interferência nas proteínas
envolvidas no mecanismo de coagulação e, finalmente, ligação
dos anticorpos anti-fosfolipídicos à superfícies celulares
previamente lesadas.
TESTES
PARA IDENTIFICAR OS ANTICORPOS ANTI-FOSFOLIPÍDICOS
1.
Anticorpo anti-cardiolipina
(sorologicamente produz um VDRL falso positivo)
O ensaio para anticorpo
anti-cardiolipina por ELISA utilizado atualmente, usando
cardiolipina ou outro fosfolipídeo como antígeno, é centenas de
vezes mais sensível do que o teste do VDRL, e pode detectar
anticorpos do tipo IgG e IgM. Como há a possibilidade de
resultados positivos transitórios, é impositivo a confirmação
após seis semanas. Os resultados positivos só com IgM podem ser
falsos positivos
2.
Ensaio para anticorpo lúpico
De
acordo com as normas da International Society on Thrombosis and
Hemostasis, estes anticorpos devem ser detectáveis em duas ou
mais ocasiões com um intervalo de, pelo menos, seis semanas.
A
pesquisa destes anticorpos é feita pelos testes TTPA ou dRVVT,
que apresentar-se-ão prolongados, não sendo corrigidos
pela adição de plasma normal, mas sim quando da adição de
excesso de fosfolípides:
No TTPA o caolim ativa o fator XII,
e no dRVVT o veneno de víbora de Russel ativa diretamente o fator
X. Em diferentes pontos da cascata da coagulação há necessidade
da atuação dos fosfolípides como cofator, os quais, em virtude
da ação dos anticorpos anti-fosfolipídeos, estarão total ou
parcialmente bloqueados, ocasionando o prolongamento da
coagulação. Ao se repetir estes testes com a adição de um
excesso de fosfolípides, eles irão ter o seu tempo corrigido.

|