|
Nº
130 Set / Out - 2003
MONITORAÇÃO
LABORATORIAL DOS ANTICOAGULANTES ORAIS
O
anticoagulante oral de maior utilização no nosso meio é a
varfarina (hidroxi-cumarina-femprocumon), a qual tem demonstrado
manter o Tempo de Protrombina (TP) razoavelmente estável quando
monitorado pela Relação Normalizada Internacional (RNI).
A
varfarina diminui a quantidade de vitamina K ativa ao dificultar a
sua regeneração. A vitamina K em sua forma ativa, por sua vez,
é cofator na reação de carboxilação dos resíduos do ácido
glutâmico nos fatores II, VII, IX e X, e também na proteína S e
proteína C da coagulação. Como resultado, a terapêutica pela
varfarina ao provocar redução da vitamina K ativa, irá
ocasionar deficiência na atividade daqueles fatores de coagulação
com prolongamento do TP. Os pacientes com leve deficiência de
vitamina K podem ter o seu Tempo de Tromboplastina Parcial Ativado
normal.
Pacientes
anticoagulados que vêm se mantendo com os índices de RNI
satisfatórios para a sua condição, sem nenhuma alteração na
posologia da varfarina podem, inesperadamente, apresentar modificações
significativas do RNI, para mais ou para menos. Considerando os
riscos para os pacientes decorrentes dessas oscilações da
atividade coagulante, adquire grande relevância o conhecimento
dos fatores que podem interferir na terapêutica e os mecanismos
envolvidos nessa anticoagulação.
FARMACOCINÉTICA
A
varfarina administrada por via oral sofre rápida e total absorção
gastrointestinal e liga-se fortemente à albumina plasmática. A
concentração máxima no sangue ocorre uma hora após a ingestão,
porem, em virtude do seu mecanismo de ação, este pico não
coincide com o seu efeito farmacológico anticoagulante máximo, o
qual ocorre cerca de 48 horas mais tarde. O efeito de uma dose única
só começa depois de 12-16 horas e dura 4-5 dias.
A
varfarina é metabolizada pelo sistema hepático citocromos P450 e
a sua meia vida é da ordem de 40 horas. Como existe uma elevada
quantidade de fármacos de uso rotineiro que são metabolizados
por essa mesma via, a associação destes, competindo com a
varfarina pela mesma via, poderá provocar oscilações
importantes na anticoagulação dos pacientes. Assim, tanto a
introdução como a suspensão destes fármacos poderá modificar
o RNI.
Por
outro lado, a indução de diferentes formas de citocromos P450
por uma determinada droga, pode estimular o metabolismo da mesma e
também o de outras drogas que sejam susbstrato desse mesmo
citocromo. Um exemplo deste evento é a associação de
fenobarbital – potente indutor de citocromo P450 – e de
varfarina. Quando um paciente é tratado simultaneamente com estas
duas drogas, serão necessárias altas doses de varfarina para
manter a anticoagulação em níveis adequados, porque o
fenobarbital ao induzir o sistema citocromo P450, faz com que a
varfarina seja eliminada em uma velocidade mais rápida e tenha a
sua efetividade terapêutica reduzida. Problemas clínicos serão
criados quando o fenobarbital for removido do esquema de
tratamento sem a correspondente diminuição da dose da varfarina.
Este exemplo se aplica a uma grande gama de drogas, cujas interferências
estão elencadas, em sua maioria, no Manual de Exames de Laboratório
do IACS.
POSOLOGIA
Com
uma dose de 10 mg uma vez ao dia, serão necessários 5 a 10 dias
(5 meias vidas) para atingir um equilíbrio terapêutico. O ajuste
da dose ideal, para induzir a anticoagulação e sem chegar a
provocar hemorragias, pode demandar algum tempo, porque o efeito
de uma determinada dose só é observado dois dias após a sua
administração. Geralmente a dose é ajustada para fornecer um
RNI de 2,0 a 3,0, sendo este alvo variável em função da situação
clínica.
A
posologia deverá levar em conta, também, a existência ou não
dos fatores que podem potencializar ou reduzir o efeito
anticoagulante da varfarina.
FATORES
QUE POTENCIALIZAM O EFEITO ANTICOAGULANTE
Doenças
Hepatopatias
que interferem na síntese dos fatores da coagulação. Elevação
da taxa metabólica: febre e tireotoxicose.
Drogas
a)
Reduzem o catatabolismo hepático da varfarina: cimetidina,
imipramina, cotrimaxazol, cloranfenicol, ciprofloxacina,
metronidazol, amiodarona e antifúngicos (azóis).
b)
Inibem a função plaquetária: moxalactama, carbenecilina,
aspirina.
c)
Deslocam a varfarina da albumina aumentando a concentração
plasmática da fração livre: alguns anti-inflamatórios não
esteróides e hidrato de cloral.
d)
Inibem a redução da vitamina K: cefalosporinas.
e)
Diminuem a disponibilidade de vitamina K: antibióticos de
largo espectro e algumas sulfonamidas, ao deprimir a flora
intestinal sintetizadora de vitamina K.
f)
Bebidas alcoólicas: numa primeira fase, ao competir com a
varfarina na mesma via metabólica, irão potencializar seus
efeitos. A longo prazo o efeito é inverso: o consumidor crônico
de álcool ao induzir uma maior atividade do citocromo P450 irá
aumentar a eliminação da varfarina e, portanto, serão necessárias
maiores doses desta para obter o mesmo efeito.
FATORES
QUE REDUZEM O EFEITO ANTICOAGULANTE
Estado
fisiológico/doença
Na
gravidez por aumento na síntese dos fatores de coagulação, e no
hipotireoidismo por redução na degradação desses fatores, irá
ocorrer redução na resposta à varfarina.
Drogas/alimentos
Várias
drogas reduzem a eficácia da varfarina, exigindo o uso de doses
maiores. Se a dose da varfarina não for reduzida por ocasião da
interrupção do fármaco que estava interagindo, poderá haver
uma anticoagulação excessiva e ocorrência de hemorragias.
a)
Vitamina K: oriunda de alimentação parenteral e preparados vitamínicos.
Alimentos como couve, couve-flor, espinafre, brócolis, repolho,
agrião, aspargo, ervilha, alface, folhas de nabo, chá verde, fígado,
abacate e azeite de oliva, devem ter a ingesta padronizada.
b)
Drogas que induzem as enzimas P450 hepáticas: rifampicina,
carbamazepina, barbitúricos e griseofulvina.
c)
Drogas que reduzem a absorção da varfarina: colestiramina,
fibras, orlistat e trânsito gastrointestinal acelerado.
|