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Nº
122 Set/Out - 2002
MARCADORES
DE LESÃO ISQUÊMICA CARDÍACA
A
síndrome coronariana aguda compreende
todo o espectro dos eventos isquêmicos do miocárdio, se
estendendo da angina, injúria tecidual reversível e angina instável
até infarto do miocárdio e extensa necrose tissular miocárdica.
O desafio diagnóstico nos pacientes que se apresentam com queixa de dor
precordial tem
sido, tradicionalmente, o de firmar ou excluir a existência de lesão miocárdica.
De acordo com a recomendação da OMS, devem ser preenchidos, pelo menos,
dois dos seguintes critérios para o diagnóstico de isquemia miocárdica:
1) sintomas clínicos sugestivos de isquemia miocárdica com mais de 30 minutos de duração, 2) alterações
eletrocardiográficas (ECG) consistentes com lesão miocárdica
e 3) elevação seriada na atividade de enzimas cardíacas
séricas.
Os sintomas clínicos, embora
importantes, podem ser inespecíficos e atípicos, em especial nos pacientes diabéticos e idosos. O ECG realizado precocemente depois
dos sintomas, só manifesta
alterações características em cerca de 50% dos pacientes
com infarto agudo do miocárdio (IAM). Desse modo, os outros 50%
seriam desconsiderados se o diagnóstico for baseado somente na
história clínica, dor torácica e evolução eletrocardiográfica.
O terceiro aspecto da tríade diagnóstica é a liberação de enzimas pelo
miocárdio necrosado. Estas enzimas cardíacas incluem a creatinoquinase
e suas isoenzimas, a desidrogenase lática e suas isoenzimas, a aspartato aminotransferase (transaminase
oxalacética), a aldolase, a mioquinase e a alanino aminotransferase (transaminase pirúvica).
A creatinoquinase é a primeira a mostrar atividade aumentada depois
do infarto e, se essa elevação persistir, poderá estar ocorrendo
ulterior necrose, podendo ser usados para esta confirmação os
marcadores que se elevam por períodos curtos ou de vida curta,
como a
CK-MB ou a mioglobina.
Com o uso de novos marcadores bioquímicos não enzimáticos, como a mioglobina
e as troponinas cardíacas, o terceiro critério da tríade diagnóstica
proposta pela OMS necessita ser revisto. A detecção de diminutas
quantidades desses marcadores liberados pelo miocárdio lesado,
pode ser de utilidade diagnóstica
e prognóstica.
A
Creatinoquinase–MB
A creatinoquinase (CK ou CPK) é composta das subunidades M e B, que se
associam formando as isoenzimas CK-MM, CK-BB e CK-MB. A isoenzima
CK-MB compreende aproximadamente 20% da CK total no miocárdio
e cerca de 3% da CK no músculo esquelético, e é liberada pelo
miocárdio durante o processo de necrose.
Uma única determinação da CK-MB efetuada logo após a queixa do paciente,
oferece uma sensibilidade de cerca de 50% para detectar o IAM.
A determinação seriada ao longo das primeiras tres horas dá uma
sensibilidade de mais de 90%, e se aproxima dos 100% depois de
10-12 horas.
Os níveis da CK-MB recuperam a normalidade cerca de 3 dias após o IAM.
Como marcadores de injúria do miocárdio ambas, a CK e a CK-MB, tem deficiências
por estarem presentes em outros tecidos além do miocárdio, e uma
elevação e queda destas enzimas pode estar associada com outras
condições além do IAM. Tem sido, também, reconhecido que uma injúria
cardíaca isquêmica pode ocorrer sem necrose miocárdica e a liberação
da CK e CK-MB pode acontecer sem infarto. O diagnóstico do IAM
com o uso destas enzimas é, portanto, um desafio para os clínicos,
mas, apesar das deficiências, a CK-MB tem sido o marcador diagnóstico
mais utilizado para firmar ou excluir o IAM. Alguns cardiologistas
realçam a importância quando os seus valores de pico podem estimar
qualitativamente a dimensão do infarto e quanto ao uso para monitorar
o reinfarto.
A
Mioglobina
A mioglobina (Mb) é rapidamente liberada pela musculatura estriada lesada
do esqueleto e do miocárdio. A sua importância repousa na precocidade
da liberação após o início da dor torácica, o que a torna muito
efetiva para excluir o IAM. Ela começa a se elevar dentro de 1
a 3 horas e, se os seus níveis estiverem dentro dos valores de
referência 8 horas depois do início da dor torácica, o diagnóstico
de IAM é excluído. A Mb, no entanto, não tem especificidade, pois
o aumento oriundo da musculatura esquelética não pode ser distinguido
daquele do miocárdio. A determinação simultânea da Mb e da anidrase
carbônica III pode conferir especificidade, pois esta eleva-se
nas injúrias da musculatura esquelética e está ausente nas miocárdicas.
As
Troponinas
O complexo das troponinas é composto de três membros, a troponina T, troponina
I e troponina C.
Estas três subunidades estão envolvidas com a regulação da contração
da musculatura, sendo que as troponinas cardíacas T (TcT) e I
(TcI) diferem
de seus homônimos da musculatura esquelética.
Nestes últimos anos, a TcT e
a TcI tem desafiado a CK-MB como o
"padrão ouro" para a detecção precoce do IAM,
e também para o diagnóstico tardío, pois possuem uma janela diagnóstica
maior permanecendo elevadas por cerca de 7 dias depois do infarto.
A sensibilidade das troponinas é
similar a da CK-MB durante as primeiras 48 horas após o desconforto
torácico, situando-se em 50% a 65% dentro das primeiras 8 horas.
Dessa forma, ambas, não são efetivas como marcadores precoces
do IAM, mas em dosagens múltiplas atingem 100% de sensibilidade.
As troponinas cardíacas I e T são muito específicas para eliminar os diagnósticos
falsos positivos de IAM em pacientes com CK-MB elevado por injúria
em musculatura esquelética. A escolha como o melhor marcador para
IAM tem, contudo, recaído sobre a troponina I , que demonstrou
ser específica para IAM no hipotiroidismo, rabdomiolise, lesão
de músculo esquelético, queimaduras, intoxicação por cocaína e
período perioperatório, não obstante, ser possível a elevação
de ambas, T e I, em 10% a 30% dos pacientes com insuficiência
renal crônica sem infarto.
Os interferentes apontados como causadores de falsas elevações da troponina
I, são a presença de fibrina , eritrócitos e outros materiais
particulados no soro/plasma ou a ocorrência de anticorpos heterófilos.

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