
Nº 120 Jun - 2002
PROTEÍNA C REATIVA ULTRA-SENSÍVEL ( II )
Utilidade
Mesmo
entre indivíduos sãos a proteína C reativa (PCR) pode variar dentro de uma
faixa bastante ampla de valores, o que permite agrupá-los em, por exemplo,
níveis baixos, intermediários e altos. Desde que excluída a ocorrência de
uma infecção nas poucas semanas precedentes ao momento da coleta, os níveis
da PCR de um mesmo indivíduo tendem a ser muito estáveis. Não há variação
diuturna ou sazonal ou em resposta a ingestão de alimentos. Ademais, as concentrações
séricas permanecem sem se alterar no sangue estocado e podem ser mensuradas
depois de decorrido décadas. Assim, o pesquisador que tenha conduzido algum
estudo epidemiológico em doença cardiovascular ao longo de anos – medindo
colesterol, fatores pró-coagulantes ou qualquer outro parâmetro – pode
retornar ao seu freezer, descongelar as amostras desses soros e medir a PCR.
Desse modo foi possível concluir com brevidade estudos de prospecção, da PCR
em relação aos eventos cardíacos, cobrindo longos períodos de tempo.
Os
trabalhos mais sistemáticos sobre PCR e risco cardíaco foram produzidos por
Ridker e col. em Harvard, que demonstrou ser a PCR um preditor de risco de
eventos cardíacos futuros ainda mais acurado do que o colesterol; e demonstrou,
também, que os níveis de colesterol e de PCR são independentes. Isto significa
que a medição da PCR pode adicionar valor preditivo a medida do colesterol.
Indivíduos com um colesterol baixo mas com PCR relativamente alta, ou vice
versa, podem estar em alto risco de doença arterial coronariana (DAC). Aqueles
com altos níveis de ambos, colesterol e PCR, apresentam um risco ainda mais
elevado.
Esses
mesmos autores demonstraram que a magnitude dos benefícios às doenças cardíacas
ocasionados pela ingestão diária de aspirina, está diretamente correlacionada
ao nível da PCR: tanto maior o nível da PCR maior o benefício da aspirina.
Quanto as estatinas, o seu modo de ação tem sido misterioso porque a sua eficácia
em reduzir doença cardíaca ocorre mesmo naqueles indivíduos com colesterol
baixo. Agora, Ridker e col. demonstraram que as estatinas também atuam reduzindo
os níveis da PCR e a inflamação. A demonstração que as estatinas reduzem o
risco de DAC naqueles indivíduos com níveis saudáveis de colesterol mas com
PCR elevado, forneceu as evidências clínicas para apoiar a prescrição dessas
drogas “anti-inflamatórias” para beneficiar as pessoas com colesterol
baixo.
Ampliando um pouco mais esse panorama, verificou-se que as concentrações da PCR estão, também, associadas a outras variáveis e fatores de risco para DAC. Veja o quadro abaixo:
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A PCR COMO FATOR DE RISCO |
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Ao
longo destes últimos anos acumularam-se dados consideráveis apontando a PCR
como importante atriz no processo da doença e o uso da dosagem da proteína
C reativa ultra-sensível (PCRus) está estabelecido na medicina clínica. Os
médicos estão utilizando-a para avaliar o risco de DAC em seus pacientes e,
em paralelo, a indústria farmacêutica vem analisando a possibilidade de usar
moléculas que inibam a PCR para reduzir o risco de enfarte e derrames ou,
talvez, reduzir a extensão dos danos.
Amostra
/ Interpretação
Ao
solicitar a medição da PCRus, o médico assistente deve excluir a possibilidade
do paciente ter desenvolvido alguma infecção nas últimas semanas precedentes,
pois esta eventualidade invalidaria o resultado para fins de avaliação do
risco de DAC. Como a PCRus aumenta na vigência de infecção e inflamação, se
forem obtidos resultados acima de 3 mg/dL é conveniente a confirmação após
2-3 semanas, ou comparar com valores prévios.
Os valores abaixo de 0,3 mg/dL são considerados satisfatórios, contudo, para interpretar os resultados, Ridker desenvolveu um algoritmo que permite estabelecer o risco relativo do paciente desenvolver eventos cardíacos futuros, baseado no nível da relação colesterol total/colesterol HDL e no nível da PCRus. Ao invés de utilizar os resultados em mg/dL estes são estratificados em cinco faixas de referência, ou seja em quintís (quintil [ou quartil ou decil] = proporção de todas as observações que caem entre valores especificados), utilizando as tabelas a seguir:
TABELA PARA DETERMINAÇÃO DO QUINTIL DA PCRus
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QUINTIL |
PCRus (mg/dL) |
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1 |
0,1 - 0,7 |
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2 |
0,7 - 1,1 |
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3 |
1,2 - 1,9 |
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4 |
2,0 - 3,8 |
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5 |
3,9 – 15,0 |
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QUINTIL |
COL TOTAL / HDL (mulheres) |
COL TOTAL /HDL (homens) |
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1 |
Abaixo de 3,4 |
abaixo de 3,4 |
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2 |
3,4 - 4,1 |
3,4 - 4,0 |
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3 |
4,1 - 4,7 |
4,0 - 4,7 |
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4 |
4,7 - 5,8 |
4,7 - 5,5 |
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5 |
Acima de 5,8 |
acima de 5,5 |
Uma
vez obtido o quintíl da relação CT/HDL e o quintil da PCRus, estes são usados
na tabela abaixo para calcular o Risco Relativo do paciente:
TABELA
PARA CALCULAR O RISCO RELATIVO

Risco Relativo = mede a probabilidade de primeiro evento coronariano entre indivíduos aparentemente saudáveis, com as diferentes correlações de PCRus e CT/HDL, em relação aos indivíduos que possuem estes parâmetros normais.
Neste último mês de marco, estiveram reunidos em Atlanta a American Heart
Association, American College of Cardiology e Center for Disease Control and
Prevention, para repassar estas faixas de referência propostas por Ridker
e col. e para desenvolver as linhas de conduta diante do paciente com a PCRus
persistentemente elevada.