Nº 113   Ago - 2001 


GONADOTROFINA CORIÔNICA HUMANA
A imunoreatividade falso positiva             
      

A Gonadotrofina Coriônica humana é largamente utilizada  como um indicador de gravidez ou de tumor produtor de hCG.


 Diagnóstico precoce da gravidez

 O hCG é uma glicoproteina composta por duas subunidades:  a e b.  A subunidade alfa é essencialmente idêntica a do LH, FSH e TSH, fato que pode determinar alguns resultados falsos positivos nos testes de gravidez que são baseados na reatividade com a molécula total. A subunidade beta é específica do hCG  e é responsável pelos seus efeitos hormonais. Os testes de laboratório baseados na  reação com a subunidade beta não são sujeitos a reatividade cruzada com aqueles outros hormônios.

 O teste feito usando como amostra a primeira urina da manhã é preferível por ser este um espécime mais concentrado. Os resultados podem ser negativos numa gravidez inicial ou quando o teste é feito em urina muito diluída (densidade baixa). O teste qualitativo feito em lâmina ou em tubo pode ser difícil de interpretar quando a concentração do hCG é baixa, como é o caso da gravidez inicial, aborto incompleto ou recente e na gravidez ectópica. Esses testes qualitativos têm sido substituídos pela dosagem da subunidade beta do hCG, utilizando dois anticorpos monoclonais associados com imunoespecificidade para distintos sítios da molécula. As elevadas especificidade e sensibilidade desses testes atuais, permitem identificar uma prenhez já a partir do 60 – 140 dia da concepção, o que corresponde a uma positivação do teste quando o hormônio intacto excede 5 UI/L.

 Dosagem do ß hCG

 A interpretação do teste requer cautela, pois a  presença do hCG não é sinônimo de gestação. Valores elevados são encontrados em neoplasias de células germinativas e tumores trofoblásticos gestacionais (mola hidatiforme, mola  parcial e  coriocarcinoma).  Algumas ilhotas celulares de outros tumores também podem produzir hCG, como alguns carcinomas do pulmão, estômago, pâncreas, fígado e mama. O hCG no líquor pode ser útil no diagnóstico de neoplasia germinativa intracraneana.

 Resultados falsos positivos podem ser obtidos após a transfusão de sangue oriundo de doador com altos níveis do hCG,  pela presença de anticorpos heterófilos, ou de materiais semelhantes ao hCG  eventualmente presentes em associação com cistos de ovário ou doença inflamatória pélvica.

 Apesar de raros, os resultados falsos positivos podem  ser os responsáveis pela adoção de condutas  médicas de graves conseqüências:

 Conseqüências desastrosas

Na eventualidade de uma paciente apresentar um resultado positivo para hCG sérico, na qual foi excluída a possibilidade de gravidez intra-uterina (ultra-som, dilatação e curetagem) e ectópica (ultra-som, laparoscopia), a inferência citada nos livros texto é de coriocarcinoma ou doença gestacional trofoblástica.  Esta patologia seria oriunda de células placentárias remanescentes no útero a partir de uma gravidez anterior, aborto ou outro evento gestacional, que se tornaram malignas. Estes cânceres podem ser extremamente invasivos e os livros de texto recomendam a instituição de terapia, mesmo que a ressonância magnética e a tomografia computadorizada não revelem tumor.  Estas pacientes receberiam, portanto, quimioterapia e, se esta falhasse em reduzir os níveis do hCG sérico, haveria indicação de histerectomia; e, na falha de reduzir os níveis do hCG, uma combinação de quimioterápicos altamente citotóxicos estaria em consideração. Uma relação de 12 pacientes com hCG sérico falso positivo cuja conduta médica redundou nessas conseqüências devastadoras foi publicada no Lancet 2000; 355: 712-15, e no Clinical Chemistry 2001; 47: 308-315 demonstrando a imunoreatividade falso positiva no soro e a completa ausência do hCG na urina. Esta falso positividade é aparentemente devida a interferência de anticorpos heterófilos ou anticorpos anti-animal, e pode ser bloqueada fazendo-se uso de agentes bloqueadores heterofílicos.

 O USA hCG Reference Service, que está em funcionamento há três anos com a finalidade de auxiliar os médicos e laboratórios com pacientes apresentando resultados do hCG irregulares ou contraditórios, refere outros 12 desses casos de conduta enganosa com conseqüências desastrosas, apenas no último ano.

 Conclusão

 Espera-se que a divulgação desses casos de condutas enganosas induzidas pelos resultados falsos positivos do hCG venha contribuir para limitar a sua ocorrência. Desse modo, a possibilidade de imunoreatividade falso positiva para hCG sérico deverá ser considerada sempre que forem obtidos resultados positivos irregulares ou contraditórios. Nessas condições, o médico assistente deve contactar o laboratório e solicitar a dosagem do hCG por metodologia diversa da utilizada anteriormente e comparar o resultado obtido no soro com o efetuado na urina.