Nº 112   Jul - 2001 

 

A PROPÓSITO DO NOSSO MANUAL DE EXAMES DE LABORATÓRIO

 Por vezes somos surpreendidos por resultados inesperados nos exames de laboratório, os quais, freqüentemente, quando repetidos acabam se confirmando. 

As possibilidades de interferências nos exames, representadas por fatores pré-analíticos, analíticos e pós-analíticos, compõem  listas extensas, em especial a que contempla as drogas interferentes. Como a relação das drogas interferentes não é facilmente acessível aos médicos assistentes, optamos por disponibilizá-la no nosso Manual da forma que nos pareceu a mais adequada para a consulta, e assim contribuir para auxiliar a  interpretação dos resultados.

 As interferências que as drogas podem causar nos resultados dos testes podem ser catalogadas em dois grupos: as interferências in vitro, isto é, que causam alterações físicas ou químicas na metodologia empregada; e as interferências in vivo, isto é, que ocasionam efeitos biológicos no organismo do usuário.

 Os Interferentes in Vitro

 Várias drogas ou seus metabolitos podem interferir no procedimento analítico usado no laboratório. É importante observar que uma droga pode interferir em uma determinada metodologia e não, necessariamente, em uma outra usada para analisar o mesmo parâmetro laboratorial.

 Diferenças de técnica podem ser decisivas no grau de interferência da droga. Por exemplo, a pesquisa de sangue oculto nas fezes feita por método imunológico não é afetada pelo uso de ácido ascórbico, o qual poderá, contudo, gerar resultados falsos negativos se a pesquisa for feita  com o reativo o-toluidina. Do mesmo modo, o rotineiro exame de glicose feito por métodos enzimáticos identifica especificamente a glicose, enquanto os métodos colorimétricos sofrem influência de vários outros açúcares.

 Os Interferentes in Vivo

 Quanto aos efeitos biológicos das drogas in vivo, eles podem ser de dois tipos:

 1 - Os que regularmente interferem em todos os indivíduos que façam uso da droga; por exemplo, os  diuréticos tiazídicos dentre outras ações, diminuem os níveis de potássio no sangue, causam hiperglicemia, diminuem a tolerância a glicose e podem levar a uma azotemia pré-renal com hiperuricemia.  

 2 - Os que são encontrados irregularmente em algumas poucas pessoas devido a idiossincrasias, como é o caso das estatinas, que ocasionam elevação do CPK somente em alguns poucos usuários.

 Cabe lembrar que os efeitos encontrados nos relatos científicos são geralmente referentes ao uso isolado da droga; associações de drogas podem gerar efeitos inesperados e mesmo difíceis de ser explicados. Um exemplo interessante é o da cafeína encontrada no café, chá e bebidas coladas que, quando associada a analgésicos, estimula as adrenomedulares elevando os níveis das catecolaminas no sangue, ocasionando pequenas elevações da glicemia;  pode aumentar também os ácidos graxos livres em até 30% e, se em uso habitual, eleva os triglicérides.

O diálogo médico X  laboratório

 Quando o médico assistente está diante de um resultado aparentemente discrepante, além da análise dos interferentes, é importante fazer contato com o colega do laboratório e estabelecer um diálogo. O diálogo é sempre proveitoso  para ambos os lados e da troca de informações poderão advir ações e conclusões úteis:

 1 - Mobiliza o laboratório para certificar-se dos seus resultados e rastrear as ações desde a  coleta até a emissão do laudo. 

 2 - Complementa  as  informações    necessárias  para ambos com relação   a possíveis interferentes pré-analíticos (coletas inadequadas realizadas pelo paciente, tomada da amostra em situação não conforme por omissão da informação por parte do paciente, instruções erradas quanto a necessidade de jejum, repouso, dietas, suspensão de medicamentos e etc).

 3 - Traz a tona, através dos resultados laboratoriais a possibilidade de outras patologias associadas à patologia de base e que somente estão expressadas nos exames laboratoriais, não havendo ainda manifestação clínica evidente.

 4 - Incentiva a busca pela qualidade que ambos os profissionais querem alcançar e que tem como beneficiário o paciente.

 No caso do laboratório o diálogo se constituirá numa oportunidade de rever seus métodos e protocolos e assim reavaliar seus processos. No caso do médico assistente, estimula uma nova abordagem com o paciente para a busca de explicações que possam elucidar as alterações encontradas.

Os médicos do Instituto estão permanentemente disponíveis para a troca de idéias, e têm certeza de que a qualidade dos nossos serviços pode ser significativamente melhorada com as críticas, esclarecimentos e a experiência dos colegas clínicos.