Nº 111   Jun - 2001

 

A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO DA INFECÇÃO HIV-1 AGUDA

Ultimamente a atenção foi voltada para os potenciais benefícios do tratamento dos pacientes durante a fase aguda ou estágios iniciais da infecção pelo HIV-1. Nesta fase em que o vírus se replica rapidamente e o hospedeiro mobiliza suas defesas imunológicas, a instituição precoce da terapia-retroviral pode beneficiar os indivíduos infectados pela redução da quantidade dos vírus disponíveis para infectar e destruir os linfócitos auxiliadores CD4+; ademais, a rápida redução dos vírus circulantes diminue o potencial para o desenvolvimento de cepas resistentes às drogas e, finalmente, haverá um importante benefício de saúde pública a partir da precoce identificação dos transmissores potenciais. Modelos matemáticos sugerem que entre 52 e 92% de todas as infecções pelo HIV-1 podem ser transmitidas durante a fase aguda da infecção por causa da elevada carga viral associada a ignorância do portador quanto a sua condição de disseminador do vírus.

O diagnóstico da infecção primária é, contudo, freqüentemente perdido porque o médico não está atento aos sinais e sintomas clínicos ou porque não são solicitados os exames apropriados.

 O quadro clínico

O quadro clínico da infecção HIV-1 aguda varia amplamente: desde os totalmente assintomáticos aos que requerem hospitalização. A maioria, contudo, apresenta um quadro mononucleose-símile, com sinais e sintomas apontados no quadro:

febre 77 %
fadiga 66 %
rash cutâneo 56 %
mialgia 55 %
cefaleia 51 %
faringite 44 %
linfadenopatia 40 a 70 %
artralgia 31 %
náusea, vômito ou diarréia 30 a 60 %
úlcera oral 29 %
perda de peso 24 %
suores noturnos 22 %
tosse 22 %
anorexia 21 %
enzimas hepáticos elevados 21 %
dor abdominal 19 %
candidíase oral 12 %
fotofobia 12 %

[Adaptado de Vanhems – J. Acquired Immune Defic. Syndr. 1999, 21:99-06

 O diagnóstico diferencial inclue mononucleose, dengue, citomegalovírus, herpes simples, influenza, rubéola, hepatites, faringite estreptocócica, brucelose e toxoplasmose aguda. Em muitas oportunidades a chave para suspeita é a identificação de um fator ou comportamento de risco.

Diagnóstico laboratorial

Na infecção primária pelo HIV-1 os testes convencionais para os anticorpos anti-HIV-1 (ELISA) são caracteristicamente não reagentes ou fracamente reagentes. Desse modo, o diagnóstico da infecção aguda é estabelecido pela presença do antígeno  p24 ou do RNA viral por técnicas de PCR, com a concomitante sorologia para anticorpos HIV-1 negativa ou indeterminada. Este diagnóstico deverá ser ulteriormente confirmado pela subseqüente soroconversão, atestada pelo ELISA e pelo Western blot.

Detecção do vírus pelo PCR ou pelo antígeno p24

A rápida elevação da viremia na fase aguda da infecção pelo HIV-1 alcança e ultrapassa os limites de detecção dos testes usados para avaliar a carga viral, como o RNA HIV-1 baseado no PCR quantitativo ou o b-DNA qualitativo. É importante alertar que existe a possibilidade da ocorrência de falsos positivos nesses testes (2 a 5 % no b-DNA) que devem, portanto, ser obrigatoriamente confirmados.

Outro método de estabelecer o diagnóstico do HIV-1 agudo é o teste para detecção do antígeno p24, cujos níveis estão elevados nesta fase.

Linfócitos T

O sistema imune do hospedeiro é grandemente afetado pelo HIV-1, e há uma significativa queda no número dos linfócitos periféricos em virtude da queda das células T CD4+, cujo nível mais baixo é atingido em torno de 9 dias depois do início da doença clínica aguda. Esse evento é seguido por uma expansão das células T CD8+, resultando na inversão da relação CD4+/CD8+. A inversão da relação CD4+/CD8+ subseqüentemente atinge valores menores que 0,5 em decorrência do aumento absoluto das células CD8+, a qual está associada a queda da viremia. Acredita-se que esta queda da viremia plasmática é em parte devida a ação dos linfócitos T citotóxicos CD8+.